Março 02, 2004

Um post ao meu irmão. . .

Lembro-me como se fosse hoje. . .
O meu dia na escola foi como todos os outros, com muita coisa para aprender e muita brincadeira pelo meio.

Lembro-me de estar a baloiçar na cadeira e de esta ter raspado na parede fazendo um ruído estranho.
O professor Helder, que eu adorava e me acompanhou durante os anos mais importantes da instrução primária, não gostou e pensou que o ruído tivesse sido provocado por outro motivo.
Aproximou-se de mim e ralhou-me, deixando-me envergonhada e sem poder explicar a verdadeira origem daquele som.
FIquei triste, nunca gostei que ele me ralhasse, e menos gostava quando ele não tinha razão para o fazer.

À hora de sempre fui para casa.
Passei o resto da tarde como uma criança normal de 8 anos, a fazer os trabalhos da escola, a ver os desenhos animados, à briga com o Nuno, o mano mais velho, e até esse dia, o meu único irmão.

Depois de jantar, o pai, que também era teu, e a mãe, que era apenas minha e do Nuno, chamaram-nos para conversar no quarto.
Estava lá em casa o Rui, o vizinho do rés-de-chão, uma verdadeira peste em ponto pequeno.
O Balú, pastor alemão fiel, brincalhão e doce, mais velho do que tu por apenas 6 meses, andava de lá para cá.

Lembro-me bem da conversa. . .

Eu e o Nuno sentados na beira da cama, o pai de um lado e a minha mãe do outro.

O pai perguntou:
"Gostavam de ter mais um irmão?"

Inocentemente, rimos, eu e o Nuno, e dissemos que sim.
O pai respondeu: "já têm um irmão. . ."

Olhei para a minha mãe e perguntei, com lágrimas nos olhos e um sorriso imenso, olhando ao mesmo tempo para barriga dela: "Oh mãe, quando é que o tiveste?!"
Imaginando já que tinha sido durante o Verão, enquanto eu e o Nuno estavamos na colónia de férias em Aveiro.
Acreditei que me tivessem escondido esse irmão durante esses meses todos e que tinha que haver uma boa razão para isso.

Mas a minha mãe forçou um sorriso, que me lembro de ser triste, e disse carinhosamente "Oh tontinha. . ." e mais não disse.
Não me lembro do resto da conversa que tivemos com o pai.
Sei que ele explicou que apesar de seres nosso irmão, não eras filho da minha mãe.
Estranhei, mas aceitei, estava empolgada com o facto de ter um maninho bebé.


Vestimos o casaco, e lá fomos nós até ao Hospital Particular de Lisboa, para te visitar.

Lembro-me que no caminho me recordava que a minha mãe e o pai tinham saído na noite anterior bem tarde, depois de termos chegado a casa vindos da festa dos escuteiros à qual o pai não foi.
E depois percebi porquê.

Quando te vi, Tiago, eras tão pequenino, tão feínho, mas com a beleza de um recém nascido que veio ao mundo um mês antes do previsto.
Tinhas pressa em ver os teus manos.
Mal abrias os olhitos, dormias profundamente no teu berço de maternidade.

Eras tão pequenino, Tiago. . .

Tinha imensa vontade de te pegar ao colo, mas não podia, e ao mesmo tempo tinha medo de magoar.

Nessa altura, a seguir ao jantar, havia uma animação na televisão, logo depois do telejornal, com uma espécie de pato animado, que se chamava Pêtêtê.
De imediato foi essa a tua alcunha, e durante anos te chamavmos de Teté.
Ainda hoje, quando falamos de ti te chamamos assim.

Lembro-me que depois de saires da maternidade, onde ficaste algum tempo por seres prematuro, te iamos visitar.
Lembro-me de ver o pai e a tua mãe a darem-te banho, ainda com o resto do teu cordão umbilical.
Tiraram-te cuidadosamente da água, e tu, talvez por quereres voltar a um ambiente onde 2 anos depois te mostraste tão à vontade, resolveste fazer um xixi muito grande para cima da roupa limpa que estava ao teu lado.

Todos nos rimos.

Tanto que nos rimos contigo, Tiago, ao longo de tanto tempo.

Foste crescendo, foste ficando uma criança traquina, inteligente, doce, extremamente simpático, muito brincalhão e divertido.
Por onde passavas, todos se encantavam contigo.
Sorriso simpático, olhar doce, esse eras tu.

Fomos de férias com a minha mãe, tu vieste connosco.
Ela adora-te e tem imensas saudades tuas.

Recordo o verão de 1988 em Sesimbra, que sei que tu não lembras, eras tão pequenino.
A minha mãe tratava-te como se fosses uma cria dela, não nos distinguia em nada.

Adormecia-te todas as noites, dava-te a comida, vestia-te depois do banho, tomava conta de ti na praia enquanto eu e o Nuno nadavamos para longe.
E tu dizias sempre "Eu quero ir com os manos!"
Mas não podias.
Eras tão pequenino.

Passado um tempo, começamos a nos afastar, com muita pena minha.
Moravas longe para te poder ver mais vezes.

E foste crescendo.

As tuas últimas visitas tornavam-se agora impossíveis para dois adolescentes que eu e o Nuno eramos.
Queriamos dormir e tu chegavas lá a casa às 9 da manhã a querer mostrar todos os truques que tinhas aprendido no karaté.
Saltavas para cima da cama do Nuno e gritavas alto: AAAAAAAAAAAAAAAYYYYYYYYAAAAAAAAA
E praticavas em cima dele.
Ele resmungava e tu saltavas para o chão e vinhas fazer o mesmo para a minha cama.

Perdi a conta às nódoas negras =|

E ficavas lá em casa, a matar saudades dos manos, que te adoravam e faziam de ti as coisas mais incriveis no que diz respeito a brincadeiras.
E tu rias contente, verdadeiramente feliz por estares connosco.

Depois o tempo continuou a correr.
E eram cada vez menos as vezes em que te viamos.
Mas falamos muitas vezs contigo ao telefone.

Mas estavamos cada vez mais distantes. . .

Passaram-se anos sem te ver.

Um dia, a tua mãe telefona-me a perguntar se queria ir convosco a Santa Apolónia para ir buscar o teu avô que vinha da Serra.
Disse imediatemente que sim.

Mal me viste a entrar no carro, a tua inquietação de miúdo pequeno começou a surgir.
Muito tímido, mas com uma vontade enorme de estares mais próximo de mim.
Tinhas 12 anos na altura.
Passamos uma manhã juntos, falamos de tudo o que quiseste, trocamos fotografias, tiramos fotografias juntos.

E mais dois passei sem te ver. . .

Mais uma vez, a tua mãe me ligou para ir ter convosco.
Estavas a tratar do BI e estavas pertinho de minha casa.
E eu não hesitei.

E fui ter contigo.
Estavas já na adolescência e quando te vi, apenas reconheci os traços de criança que ainda tens.

Fiquei de boca aberta a olhar para ti. . .14 anos. . .e eu ainda a imaginar-te com um bebé. . .como sempre te imagino, aliás.

Almoçamos juntos.

E mais um tempo se passou. . .desta vez 4 anos. . .

Durante esse tempo, mantivemos o contacto sempre à distância. Iniciaste-me no IRC, ensinaste-me a registar o meu nick por telefone para que pudesse ir ter contigo.
Lá falamos várias vezes.
Convidaste-me para o teu canal, e mal entrei, pediste respeito a todos os presentes, pois era a tua irmã quem ali estava. . .=)


Hoje, fazes 18 anos.
Já deste o nome para a tropa, qualquer dia (se não o estiveres já a fazer) começas a tirar a carta de condução.
Já tens barba, reparei nisso nas últimas fotos que me enviaste, quando foste visitar o nosso mano Martim pela 1ª vez.
Ainda conservas aquela carinha de menino pequenino e traquina.
E estás cada vez mais parecido comigo.

Ninguém faz ideia do que tu significas para mim, meu Tiagão.
És o meu mano mais lindo.
Que eu AMO acima de tudo.
E que apenas tenho pena de estarmos poucas vezes juntos.

Mas no sábado, vais ter uma festa de anos surpresa aí em casa.
Tu não sabes de nada, mas eu sei.
Porque a tua mãe ligou-me a convidar-me para ir à tua festa.
O Nuno não pode ir, vai estar a trabalhar.
Mas Tiago. . .eu vou. . .e vou-te dar um abraço tão forte e tantos beijos que vão valer por estes 18 anos.

Parabéns, meu maninho Lindo, meu Tiagão.

~º(";)º~

Posted by Kooka at Março 2, 2004 05:23 PM


Comments

:) Beijocas

Posted by: Marta at Março 2, 2004 07:22 PM

Estou sem palavras p te dizer o q sinto! Estou bastante emocionada!
PARABENS AO TIAGO pelo aniversario e por ter uma irmã tao linda como tu!
Beijinhos e Carinhos

Posted by: Lília at Março 3, 2004 07:29 AM

a única coisa que posso dizer eh: ai ai ai!eu não saberia gerir uma vida dessas!Mas tu....tens tudo o que é preciso!!beijossss

Posted by: picado at Março 3, 2004 09:54 AM

Eu queria um irmão assim! ;( beijos, linda! ;)

Posted by: catarina at Março 5, 2004 12:25 AM

Gostei muito da tua história, fiquei de lagrima, não consegui evitar.

E no meio da leitura, dei comigo a pensar na grande mulher que a tua mãe deve ser, alma enorme, sem duvida.

Beijinhos

Posted by: maria at Março 5, 2004 01:11 AM

esplêndido, vieram-me as lágrimas aos olhos

Posted by: girs at Março 6, 2004 12:21 AM

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